Por mais incrível que pareça, hoje eu encontrei tempo para me aconchegar na minha poltrona, e por o note no meu colo para voltar a escrever. A circunstância é meio chata (perdi o ônibus que me traz de volta da empresa), mas o fato de estar sentado aqui escrevendo é muito bom, confesso. E no instante ocioso em que olhei a noite cair por sobre o imponente Ferrabraz, me fitou na memória minha época de infância, a época em que eu comprava tudo com “um real”.
Lembro-me que por volta dos meus 4-5 anos, tudo o que girava em torno do dinheiro, pra mim, se baseava nos mesmos “um real”, e isso se cabe a todas as crianças que faziam parte do meu convívio. Ir ao mercado na hora do desenho, custava a minha mãe um real, assim como arrumar o quarto tinha o mesmo valor financeiro, e sem contar na tortura de secar a louça, que era aliviada quando um beija-flor pousava em minha mão.
Lembro-me bem, que as notas tinham um tom escuro, de verde tinha muito pouco, e o beija-flor estampado na nota, sempre me forçava a comprar as “pipoquinhas” Beija-Flor (que na verdade não era pipoca aquilo, mas era muito bom).
Eu sempre gastava os meus “um real” da mesma maneira, a mais indecisa: indo no mercado e perguntando o que era possível comprar com aquela nota. Coitados dos atendentes, hoje eu dou risada do que eu fazia eles passarem. Eu não tinha noção alguma de quantias e dinheiro, porém minha curiosidade infantil me fazia perguntar quantas balas eu podia comprar com um real, e quantos chicles, e quantos bombons, mas no fim, sempre comprava a mesma pipoquinha doce que combinava com o beija-flor da nota.
Até hoje não sei o porque, mas as notas saíram de circulação, no lugar delas ficou apenas as moedas. Nos meus tempos de piá já existiam as moedas, porém “elas tinham valor menor do que as notas”. Nenhuma criança gostava de ganhar duas moedas de cinqüenta centavos, ou até mesmo uma de um real, a graça estava na nota velha e amassada. Até a quantia de balas diminua a nossos olhos, quando compradas com a moeda no lugar da cédula.
Obviamente, agora eu sei que ambas tem o mesmo valor, porém o que mudou foi o valor das coisas que comprávamos com os mesmos “um real”. Vergonhoso seria chegar hoje em dia no mercado e pedir ao atendente o que é possível fazer com aquela moeda. A quantia de balas diminuiu, os chicles sumiram dos balcões e os bombons ficaram muito mais caros. Apenas a pipoquinha continua com o mesmo preço, no mesmo lugar, na parte mais baixa da gôndola, esperando alguém olhar para baixo e ao ver o beija-flor, lembrar-se que um dia foi possível comprar felicidade com cédulas velhas de beija-flor verde.
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